quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A Internet como recurso educativo


Quais as potencialidades da Internet como recurso educativo? Paulo Serra fala de que formas  a Internet pode ser utilizada no auxilio a aprendizagem dos estudantes. 

Serra: Devido as suas características específicas enquanto meio de comunicação, a Internet não uma revolução como muitas vezes se anuncia, mas a ampliação e o aprofundamento de cada uma das possibilidades educativas já permitidas, há muito por meios como a rádio ou a televisão. Mais concretamente, a Internet pode ser usada como: fonte de informação; recurso pedagógico-didáctico; objecto de estudo. Dada a sua natureza digital, interactiva e colaborativa, a Internet tem vindo a ser vista, praticamente desde os seus inícios, como uma espécie de biblioteca universal, em que podemos encontrar tudo o que queremos, desde a informação mais simples à informação mais especializada.

Leigo: Onde precisamente encontramos essas informações?

Serra: Seja nas diversas enciclopédias digitais, nas diversas bibliotecas temáticas, seja nos diversos portais ou ainda nos diversos motores de busca. E podemos descarregar essas informações de forma gratuita.

Leigo: E como é que a Internet pode ser usada dentro das salas de aula?

Serra: A Internet funciona de forma perfeita como fonte de informação – e ponto de partida – dos temas a tratar, de forma mais aprofundada e/ou alternativa, pela própria escola. Neste âmbito, projectos como a Wikipédia ou o Youtube têm vindo a assumir, nos últimos tempos, uma relevância tanto no que se refere à quantidade e qualidade dos recursos disponibilizados como à quantidade dos seus visitantes e utilizadores.

Leigo: E como é que pode ser usado como recurso pedagógico-didáctico?

Serra: Mediante um computador e um projector de vídeo, a exposição do professor ou dos alunos pode apoiar-se nos vários recursos disponíveis na Internet – textos, gráficos, fotográfias, vídeos, etc –, seja de forma directa e imediata, em tempo real quer depois de ser sujeita a determinado tratamento. Ainda é possível utilizar a Internet para disponibilizar aos alunos o conteúdo das aulas. Essa informação pode ser colocada numa página Web ou enviada por e-mail.

Leigo: E como funciona como objecto de estudo?

Serra: À semelhança do que acontece com os outros media, a Internet é ou deve ser objecto de estudo e análise não só nas disciplinas criadas para a promoção da chamada literacia informática – como é o caso das disciplinas de Tecnologias de Informação e da Comunicação – mas também em disciplinas de âmbito mais geral como a sociologia, a antropologia, a economia, o português, etc, que procuram estudar as diversas questões da informação e da comunicação, em particular, os funcionamentos e efeitos sociais próprios das TICs. As características específicas da Internet enquanto meio de comunicação faz com que se a considere um meio amigável para a escola e a sua cultura escrita de base humanista.


Referência: SERRA, Paulo. (2007). A internet como recurso educativo:  Texto da comunicação apresentada nas Jornadas Pedagógicas da Covilhã, organizadas pelas Escola Secundária Frei Heitor Pinto e que tiveram lugar no Auditório da Anil, nos dias 2 e 3 de Março de 2007.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A escola e os meios de comunicação – uma relação problemática – Paulo Serra


Com base nas ideias do pensador alemão Peter Sloterdijk, Paulo Serra fala de uma possível problemática que existe ou possa vir a existir entre a educação e os meios de comunicação.

Serra: A relação entre a escola e os meios de comunicação tem vindo a tornar-se cada vez mais problemática – até ao ponto de hoje se falar, mesmo, em conflito entre uma e outros.

Leigo: Quais os motivos dessa problemática?

Serra: O pensador alemão Peter Sloterdijk situa-as, basicamente, na evolução dos media que, a partir das primeiras décadas do século XX, conduziu ao aparecimento e desenvolvimento dos meios electrónicos como a rádio (a partir de 1918), a televisão (depois de 1945) e, mais recentemente, as redes (a partir dos anos 1970). Na sua perspectiva, esses meios terão destronado a cultura humanista, assente na escrita e na leitura dos “clássicos” – sejam os Antigos, na base do humanismo renascentista, sejam os Modernos, na base dos humanismos nacionais que preponderam entre 1789 e 1945.

Leigo: E quais as consequências disso?

Serra: ao pôr em crise a cultura escrita e humanista, os media electrónicos terão posto em crise, no mesmo passo, a escola que sempre foi o principal agente de transmissão dessa mesma cultura.

Leigo: E essa crise é visível?

Serra: Há uma coincidência entre, por um lado, a evolução dos media electrónicos, particularmente da televisão, a partir da II Guerra Mundial e, por outro lado, a crise da escola, em particular da universidade, que se começa a fazer sentir no Ocidente também a partir dessa época e explode nos finais da década de 60. Mas, a concepção de que a televisão tem efeitos profundos sobre o conjunto da sociedade e da cultura e, assim, sobre a escola, não é exclusiva de Sloterdijk, sendo partilhada por autores tão diferentes como Pierre Bourdieu, Guy Debord, Umberto Eco, Karl Popper ou Neil Postman.
A posição de Sloterdijk coloca-nos, desde logo, a seguinte questão: porque é que os meios electrónicos, em particular a televisão, terão este efeito corrosivo sobre a cultura escrita e humanista e, assim, sobre a escola?

Leigo: E qual a resposta?

Serra: Para ele, o actual conflito existente entre a escola e os media electrónicos, com destaque para a televisão, repete, de outra forma, o conflito que existiu, no humanismo antigo, entre o livro e o circo, entre “a leitura filosófica que humaniza, torna paciente e suscita a reflexão, e a embriaguez desumanizante dos estádios romanos. Assim, o que estará em causa no actual conflito entre a escola e a televisão será, em última análise, o conflito entre a “bestialidade” e a (auto)domesticação da mesma, entre os “media que desinibem” e os “media que domesticam”.
Leigo: Mas, os meios de comunicação, normalmente não complementam aquilo que se aprende nas escolas?

Serra: É verdade. Pode-se argumentar que os meios de comunicação, incluindo a televisão, fornecem todo um conjunto de informações que acabam por ampliar, e muito, a informação fornecida pela escola. Veja-se por exemplo o que acontece com canais temáticos como o National Geographic ou Odisseia, cujos programas são considerados como verdadeiras pérolas educativas. Os meios de comunicação parecem, assim, um verdadeiro complemento da escola. Este argumento não deixa de ser verdadeiro, pelo menos em parte.

Leigo: Porquê em parte?

Serra: Aquilo que na televisão se pode considerar como especificamente informativo e educativo é mais a excepção do que em regra. Além disso, se aceitarmos que as principais funções dos media residem em informar, divertir e educar, podemos dizer que a televisão se centra no divertimento – já que informar e o educar, quando existem têm também de se submeter às exigências do divertimento.

Leigo: Mas que mal existirá no divertimento? Não poderá a escola ensinar de forma divertida?

Serra: A resposta à esta pergunta é-nos sugerida, já na antiguidade, por Aristóteles que, ao procurar distinguir o que separa a tragédia da comédia, o que é sério daquilo que é divertido, diz que a comédia procura imitar os homens piores, e que a tragédia imitar homens melhores do que eles ordinariamente são. Para Aristóteles, a comédia é pois, a imitação dos homens inferiores. Hannah Arendt observa também que a verdadeira ameaça que ela representa para a cultura situa-se não propriamente na massificação mas sim na sua necessidade compulsiva de transformar todas as coisas culturais em bens susceptíveis de ser consumidos como lazeres. O que implica regra geral, a adulteração das próprias coisas culturais – no caso de um livro, através de modificações como a reescrita, a condensação, a transformação do texto em imagens – de forma a torna-las mais divertidas, fáceis e acessíveis ao grande público. Subjacente as caracterizações quer de Aristóteles quer de Arendt, está a ideia de que aquilo que diverte apela à emoções, aos sentimentos mais baixos do homem, à distracção, que são antagónicos da cultura.

Leigo: Então qual haverá de ser o papel da escola hoje?

Serra: Ora, como no passado, também hoje, o papel da escola terá de residir não em divertir – ainda que o divertimento possa ser utilizado como uma estratégia pedagógica, entre outras – mas, em exigir um esforço de reflexão e de elaboração da informação. Até porque nem sempre o que exige um esforço equivale ao aborrecimento.

Referência: SERRA, Paulo. (2007). A internet como recurso educativo:  Texto da comunicação apresentada nas Jornadas Pedagógicas da Covilhã, organizadas pelas Escola Secundária Frei Heitor Pinto e que tiveram lugar no Auditório da Anil, nos dias 2 e 3 de Março de 2007.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O virtual é um vazio – Giovanni Sartori


Giovanni Sartori é um crítico da televisão e pode-se dizer também da Internet. Nesse texto o autor alertar-nos para um dos riscos da Internet, com base na pedagogia do hipertexto.

Leigo: Em que é que te baseias para afirmar que o virtual seja um vazio?

Sartori: Bem, começo por dizer que, a revolução multimediática, é na sua premissa tecnológica a revolução digital que modifica o nosso situarmo-nos no mundo. Até hoje o homem defrontou e reflectiu o mundo real; agora é projectado para a criação de mundos virtuais. E a minha pergunta é: esta terra prometida é uma terra firme ou pouco firme apoiada no vazio?

Leigo: E o que nos dizes?


Sartori: Para responder começo pela criança e especificamente pela pedagogia do hipertexto. Como já sabemos, na pedagogia do hipertexto a criança torna-se autor-criador, que se insere num texto como quiser, no ponto que quiser e fazendo o que quiser. Ao que nos é dito, para uma infinita libertação da criatividade. Será? Compreendo que o hipertexto possa excitar o novidismo que tanto nos excita. A pergunta continua a ser: quais serão os reflexos dessa superação do pensar lógico no nosso conviver em cidades construídas pelo pensamento  e pela lógica que agora é atirada para o lixo?

Leigo: Vejo que dás muita importância a lógica. Porquê?

Sartori: Veja! Na lógica, consecutio quer dizer capacidade de construir um discurso coerente que avança de premissas para consequências. E na esfera prática a consecutio postula que os meios procedem os fins e que o instrumento esteja antes do produto. Para a criança que iremos criar, não está claro porque é que tem de se pôr primeiro a argamassa e depois o tijolo, porque é que uma coisa é começada por baixo em vez de por cima, ou porque é que o pai tem de preceder o filho.

Leigo: E o que acontece então se essa lógica for atirada para o lixo, como inicialmente te referiste?

Sartori: Se isso acontecer, tudo é virtualmente possível de ser invertido. Que é o mesmo que dizer que a realidade passa a ser onírica e que o mundo passa a ser habitado por sonâmbulos. O nosso tempo é um tempo extraordinário em dois sentidos. Primeiro porque, como estava a observar é um tempo riquíssimo em feiticeiros e charlatães. O iluminismo tinha-os largamente desacreditado de forma que, durante mais de dois séculos a civilização ocidental os tinha marginalizado. Agora ressurgiram com força e triunfam. Triunfam também porque nós estamos cada vez mais em aceleração e em fuga para frente. E esta é a segunda característica do nosso tempo. Hoje em dia tudo é neo, trans, pós. Se não “se supera”, se não se ultrapassa e galga, hoje em dia não se existe. Embora arriscando-me a não existir, eu opto por resistir.

Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O progresso tecnológico – Giovanni Sartori



O autor nos fala aqui da emergência de uma idade que designa de idade multimediática. 

Sartori: Todos os processos tecnológicos, na altura da sua aparição, foram temidos e até contestados.

Leigo: Qual a razão dessa contestação?

Sartori: É óbvio que toda a inovação incomoda, porquanto muda situações constituídas. Mas não podemos nem devemos generalizar. A invenção mais contestada, foi historicamente, a da máquina, da máquina industrial.

Leigo: Porquê?

Sartori: Quando apareceu, foi muito temida, porque – dizia-se – tirava trabalho. E, apesar da máquina ser imparável, e não obstante todos os benefícios que produziu, ainda hoje as críticas a civilização da máquina levantam problemas reais. Mas, comparada com a revolução industrial, a invenção da impressão e o progresso das comunicações não encontraram hostilidades relevantes.

Leigo: Como assim?

Sartori: É que ao contrário das contestações ao surgimento da máquina a vapor, esses foram quase sempre aplaudidos e acompanhados de previsões eufóricas. Quando apareceram, o jornal, o telégrafo, o telefone, a rádio foram saudados quase por todos, como “progressos” saudáveis na divulgação de informações ideias e cultura. Mesmo quando um progresso tecnológico não provoca receios relevantes, cada invenção dá lugar a previsões sobre seus efeitos, isto é sobre as consequências que irá produzir.

Leigo: E quanto a tecnologia, houve essa preocupação?

Sartori: Sim. Não é verdade que ela tenha provocado previsões catastróficas. Mas, a verdade é que em muitos casos previmos mal, no sentido em que aquilo que aconteceu não estava previsto.

Leigo: Podes exemplificar?

Sartori: Claro! Por exemplo, a rádio, teve efeitos secundários não previstos como a “musicalização” da nossa vida quotidiana. Quanto a televisão, até a sua aparição em meados do nosso século, o ver do homem tinha-se potenciado em duas direcções: sabíamos ampliar o muito pequeno (com o microscópio), e sabíamos ver ao longe (com o binóculo e, mais ainda, com o telescópio). Ela permite-nos ver tudo sem irmos ver: o que é visível entra em nossa casa, praticamente de forma gratuita, a partir de qualquer parte do mundo.

Leigo: Mas não é verdade que a televisão está a ser ultrapassada?

Sartori: Sim. Em poucas décadas, o progresso tecnológico mergulhou-nos na idade cibernética. 
E, de facto, passamos, ou estamos a passar para uma idade “multimediática” na qual os media são muitos, e a televisão já não é rainha dessa multimediaticidade
O novo soberano é agora o computador. Porque o computador não só unifica palavra, som, imagens, mas introduz nos “visíveis” realidades simuladas, realidades virtuais.   

Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A normose informacional – Pierre Weil


Embora reconhecendo a grande contribuição que a informática está dando para a humanidade, o autor atrai a atenção do público sobre aspectos patogénicos e letais de certas aplicações junto de diversas tecnologias. 


Algumas considerações sobre aspectos patológicos da nova cultura informacional.


Pierre: Neste início de terceiro milénio, estamos sem dúvida entrando em uma nova fase cultural, a qual está caracterizando uma nova cultura.

Leigo: Que cultura?

Pierre: A cultura informática. O sucesso da informática assume um carácter global no sentido de beneficiar bilhões de cidadãos deste mundo.

Leigo: Mas então porquê falar de aspectos patogénicos da internet?

Pierre: Porque embora, o entusiasmo reinante seja bastante generalizado, certos aspectos destrutivos estão aparecendo, encobertos por essa euforia colectiva.

Leigo: Gostarias de me falar desses aspectos que dizes ser destrutivos?

Pierre: Sim. Mas, antes, gostaria de deixar bem claro que esta explanação tem apenas o carácter de uma nota prévia; é a expressão de algumas reflexões mais ou menos profundas que, para o domínio da ciência podem constituir um manancial de hipóteses a serem conformadas pelas metodologias convenientes.

Leigo: Começado, então, podes dizer-me o que é a normose.

Pierre: Bem, o termo normose, foi forjado por Jean Yves Leloup na França e por Roberto Crema, no Brasil. Ela é o resultado de um conjunto de crenças, opiniões, atitudes e comportamentos considerados normais mas que apresentam consequências patológicas e/ou letais.
Leigo: Podes exemplificar?

Pierre: Claro! Por exemplo, o uso de alimentos com açúcar, o uso de insecticidas, o consumo de drogas como cigarro ou álcool, e o consumismo associado à destruição do planeta.

Leigo: Então acreditas que a cultura informática seja normótica?

Pierre: Sim, acredito.

Leigo: E como pensas prová-lo?

Pierre: Primeiro, preciso demonstrar que há consenso quanto a normalidade do uso da informática na cultura e que há consequências patológicas e/ou letais desse uso.
Quanto ao consenso em torno da normalidade do uso da informática, trabalhos recentes sobre a existência da informação como fenómeno cultural, parecem poder prova-lo.Por exemplo, só o uso da internet acusa uma curva assimptótica de crescimento, atingindo uma dezena de milhões de internautas.

Referência: WEILL, Pierre. A normose informacional. (2000). Brasília.