sábado, 18 de janeiro de 2014

O virtual é um vazio – Giovanni Sartori


Giovanni Sartori é um crítico da televisão e pode-se dizer também da Internet. Nesse texto o autor alertar-nos para um dos riscos da Internet, com base na pedagogia do hipertexto.

Leigo: Em que é que te baseias para afirmar que o virtual seja um vazio?

Sartori: Bem, começo por dizer que, a revolução multimediática, é na sua premissa tecnológica a revolução digital que modifica o nosso situarmo-nos no mundo. Até hoje o homem defrontou e reflectiu o mundo real; agora é projectado para a criação de mundos virtuais. E a minha pergunta é: esta terra prometida é uma terra firme ou pouco firme apoiada no vazio?

Leigo: E o que nos dizes?


Sartori: Para responder começo pela criança e especificamente pela pedagogia do hipertexto. Como já sabemos, na pedagogia do hipertexto a criança torna-se autor-criador, que se insere num texto como quiser, no ponto que quiser e fazendo o que quiser. Ao que nos é dito, para uma infinita libertação da criatividade. Será? Compreendo que o hipertexto possa excitar o novidismo que tanto nos excita. A pergunta continua a ser: quais serão os reflexos dessa superação do pensar lógico no nosso conviver em cidades construídas pelo pensamento  e pela lógica que agora é atirada para o lixo?

Leigo: Vejo que dás muita importância a lógica. Porquê?

Sartori: Veja! Na lógica, consecutio quer dizer capacidade de construir um discurso coerente que avança de premissas para consequências. E na esfera prática a consecutio postula que os meios procedem os fins e que o instrumento esteja antes do produto. Para a criança que iremos criar, não está claro porque é que tem de se pôr primeiro a argamassa e depois o tijolo, porque é que uma coisa é começada por baixo em vez de por cima, ou porque é que o pai tem de preceder o filho.

Leigo: E o que acontece então se essa lógica for atirada para o lixo, como inicialmente te referiste?

Sartori: Se isso acontecer, tudo é virtualmente possível de ser invertido. Que é o mesmo que dizer que a realidade passa a ser onírica e que o mundo passa a ser habitado por sonâmbulos. O nosso tempo é um tempo extraordinário em dois sentidos. Primeiro porque, como estava a observar é um tempo riquíssimo em feiticeiros e charlatães. O iluminismo tinha-os largamente desacreditado de forma que, durante mais de dois séculos a civilização ocidental os tinha marginalizado. Agora ressurgiram com força e triunfam. Triunfam também porque nós estamos cada vez mais em aceleração e em fuga para frente. E esta é a segunda característica do nosso tempo. Hoje em dia tudo é neo, trans, pós. Se não “se supera”, se não se ultrapassa e galga, hoje em dia não se existe. Embora arriscando-me a não existir, eu opto por resistir.

Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar

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