Giovanni Sartori é um crítico da televisão e pode-se dizer também da Internet. Nesse texto o autor alertar-nos para um dos riscos da Internet, com base na pedagogia do hipertexto.
Leigo:
Em que é que te baseias para afirmar que o virtual seja um vazio?
Sartori:
Bem, começo por dizer que, a revolução multimediática, é na sua premissa
tecnológica a revolução digital que modifica o nosso situarmo-nos no mundo. Até
hoje o homem defrontou e reflectiu o mundo real; agora é projectado para a
criação de mundos virtuais. E a minha pergunta é: esta terra prometida é uma
terra firme ou pouco firme apoiada no vazio?
Leigo:
E o que nos dizes?
Sartori:
Para responder começo pela criança e especificamente pela pedagogia do
hipertexto. Como já sabemos, na pedagogia do hipertexto a criança torna-se
autor-criador, que se insere num texto como quiser, no ponto que quiser e
fazendo o que quiser. Ao que nos é dito, para uma infinita libertação da
criatividade. Será? Compreendo que o hipertexto possa excitar o
novidismo que tanto nos excita. A pergunta continua a ser: quais serão
os reflexos dessa superação do pensar lógico no nosso conviver em cidades
construídas pelo pensamento e pela
lógica que agora é atirada para o lixo?
Leigo:
Vejo que dás muita importância a lógica. Porquê?
Sartori:
Veja! Na lógica, consecutio quer dizer capacidade de construir um discurso
coerente que avança de premissas para consequências. E na esfera prática a consecutio
postula que os meios procedem os fins e que o instrumento esteja antes do produto.
Para a criança que iremos criar, não está claro porque é que tem de se pôr
primeiro a argamassa e depois o tijolo, porque é que uma coisa é começada por
baixo em vez de por cima, ou porque é que o pai tem de preceder o filho.
Leigo:
E o que acontece então se essa lógica for atirada para o lixo, como
inicialmente te referiste?
Sartori:
Se isso acontecer, tudo é virtualmente possível de ser invertido. Que é o mesmo
que dizer que a realidade passa a ser onírica e que o mundo passa a ser
habitado por sonâmbulos. O nosso tempo é um tempo extraordinário em dois
sentidos. Primeiro porque, como estava a observar é um tempo riquíssimo em
feiticeiros e charlatães. O iluminismo tinha-os largamente desacreditado de
forma que, durante mais de dois séculos a civilização ocidental os tinha
marginalizado. Agora ressurgiram com força e triunfam. Triunfam também porque
nós estamos cada vez mais em aceleração e em fuga para frente. E esta é a
segunda característica do nosso tempo. Hoje em dia tudo é neo, trans, pós. Se não
“se supera”, se não se ultrapassa e galga, hoje em dia não se existe. Embora
arriscando-me a não existir, eu opto por resistir.
Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar
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