Serra: A
relação entre a escola e os meios de comunicação tem vindo a tornar-se cada vez
mais problemática – até ao ponto de hoje se falar, mesmo, em conflito entre uma
e outros.
Leigo:
Quais os motivos dessa problemática?
Serra:
O pensador alemão Peter Sloterdijk situa-as, basicamente, na evolução dos media
que, a partir das primeiras décadas do século XX, conduziu ao aparecimento e
desenvolvimento dos meios electrónicos como a rádio (a partir de 1918), a
televisão (depois de 1945) e, mais recentemente, as redes (a partir dos anos
1970). Na sua perspectiva, esses meios terão destronado a cultura humanista,
assente na escrita e na leitura dos “clássicos” – sejam os Antigos, na base do
humanismo renascentista, sejam os Modernos, na base dos humanismos nacionais que
preponderam entre 1789 e 1945.
Leigo:
E quais as consequências disso?
Serra:
ao pôr em crise a cultura escrita e humanista, os media electrónicos terão
posto em crise, no mesmo passo, a escola que sempre foi o principal agente de
transmissão dessa mesma cultura.
Leigo:
E essa crise é visível?
Serra:
Há uma coincidência entre, por um lado, a evolução dos media electrónicos, particularmente da televisão, a partir da II Guerra
Mundial e, por outro lado, a crise da escola, em particular da universidade,
que se começa a fazer sentir no Ocidente também a partir dessa época e explode
nos finais da década de 60. Mas,
a concepção de que a televisão tem efeitos profundos sobre o conjunto da
sociedade e da cultura e, assim, sobre a escola, não é exclusiva de Sloterdijk,
sendo partilhada por autores tão diferentes como Pierre Bourdieu, Guy Debord,
Umberto Eco, Karl Popper ou Neil Postman.
A
posição de Sloterdijk coloca-nos, desde logo, a seguinte questão: porque é que
os meios electrónicos, em particular a televisão, terão este efeito corrosivo
sobre a cultura escrita e humanista e, assim, sobre a escola?
Leigo:
E qual a resposta?
Serra:
Para ele, o actual conflito existente entre a escola e os media electrónicos,
com destaque para a televisão, repete, de outra forma, o conflito que existiu,
no humanismo antigo, entre o livro e o circo, entre “a leitura filosófica que
humaniza, torna paciente e suscita a reflexão, e a embriaguez desumanizante dos
estádios romanos. Assim, o que estará em causa no actual conflito entre a
escola e a televisão será, em última análise, o conflito entre a “bestialidade”
e a (auto)domesticação da mesma, entre os “media que desinibem” e os “media que
domesticam”.
Leigo:
Mas, os meios de comunicação, normalmente não complementam aquilo que se
aprende nas escolas?
Serra:
É verdade. Pode-se argumentar que os meios de comunicação, incluindo a
televisão, fornecem todo um conjunto de informações que acabam por ampliar, e
muito, a informação fornecida pela escola. Veja-se por exemplo o que acontece
com canais temáticos como o National Geographic ou Odisseia, cujos programas
são considerados como verdadeiras pérolas educativas. Os meios de comunicação
parecem, assim, um verdadeiro complemento da escola. Este argumento não deixa
de ser verdadeiro, pelo menos em parte.
Leigo:
Porquê em parte?
Serra:
Aquilo que na televisão se pode considerar como especificamente informativo e
educativo é mais a excepção do que em regra. Além disso, se aceitarmos que as
principais funções dos media residem em informar, divertir e educar, podemos
dizer que a televisão se centra no divertimento – já que informar e o educar,
quando existem têm também de se submeter às exigências do divertimento.
Leigo:
Mas que mal existirá no divertimento? Não poderá a escola ensinar de forma
divertida?
Serra:
A resposta à esta pergunta é-nos sugerida, já na antiguidade, por Aristóteles
que, ao procurar distinguir o que separa a tragédia da comédia, o que é sério
daquilo que é divertido, diz que a comédia procura imitar os homens piores, e
que a tragédia imitar homens melhores do que eles ordinariamente são. Para
Aristóteles, a comédia é pois, a imitação dos homens inferiores. Hannah Arendt
observa também que a verdadeira ameaça que ela representa para a cultura
situa-se não propriamente na massificação mas sim na sua necessidade compulsiva
de transformar todas as coisas culturais em bens susceptíveis de ser consumidos
como lazeres. O que implica regra geral, a adulteração das próprias coisas
culturais – no caso de um livro, através de modificações como a reescrita, a
condensação, a transformação do texto em imagens – de forma a torna-las mais
divertidas, fáceis e acessíveis ao grande público. Subjacente as
caracterizações quer de Aristóteles quer de Arendt, está a ideia de que aquilo
que diverte apela à emoções, aos sentimentos mais baixos do homem, à
distracção, que são antagónicos da cultura.
Leigo:
Então qual haverá de ser o papel da escola hoje?
Referência: SERRA, Paulo. (2007). A internet como recurso educativo: Texto da comunicação apresentada nas Jornadas Pedagógicas da Covilhã, organizadas pelas Escola Secundária Frei Heitor Pinto e que tiveram lugar no Auditório da Anil, nos dias 2 e 3 de Março de 2007.
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