O autor nos fala aqui da emergência de uma idade que designa de idade multimediática.
Sartori:
Todos os processos tecnológicos, na altura da sua aparição, foram temidos e até
contestados.
Leigo:
Qual a razão dessa contestação?
Sartori:
É óbvio que toda a inovação incomoda, porquanto muda situações constituídas.
Mas não podemos nem devemos generalizar. A invenção mais contestada, foi
historicamente, a da máquina, da máquina industrial.
Leigo:
Porquê?
Sartori:
Quando apareceu, foi muito temida, porque – dizia-se – tirava trabalho. E,
apesar da máquina ser imparável, e não obstante todos os benefícios que
produziu, ainda hoje as críticas a civilização da máquina levantam problemas
reais. Mas, comparada com a revolução industrial, a invenção da impressão e o
progresso das comunicações não encontraram hostilidades relevantes.
Leigo:
Como assim?
Sartori:
É que ao contrário das contestações ao surgimento da máquina a vapor, esses
foram quase sempre aplaudidos e acompanhados de previsões eufóricas. Quando
apareceram, o jornal, o telégrafo, o telefone, a rádio foram saudados quase por
todos, como “progressos” saudáveis na divulgação de informações ideias e
cultura. Mesmo quando um progresso tecnológico não provoca receios relevantes,
cada invenção dá lugar a previsões sobre seus efeitos, isto é sobre as
consequências que irá produzir.
Leigo:
E quanto a tecnologia, houve essa preocupação?
Sartori:
Sim. Não é verdade que ela tenha provocado previsões catastróficas. Mas, a
verdade é que em muitos casos previmos mal, no sentido em que aquilo que
aconteceu não estava previsto.
Leigo:
Podes exemplificar?
Sartori:
Claro! Por exemplo, a rádio, teve efeitos secundários não previstos como a
“musicalização” da nossa vida quotidiana. Quanto a televisão, até a sua
aparição em meados do nosso século, o ver do homem tinha-se potenciado em duas
direcções: sabíamos ampliar o muito pequeno (com o microscópio), e sabíamos ver
ao longe (com o binóculo e, mais ainda, com o telescópio). Ela permite-nos ver
tudo sem irmos ver: o que é visível entra em nossa casa, praticamente de forma
gratuita, a partir de qualquer parte do mundo.
Leigo:
Mas não é verdade que a televisão está a ser ultrapassada?
Sartori: Sim. Em poucas décadas, o progresso tecnológico mergulhou-nos na idade
cibernética.
E, de facto, passamos, ou estamos a passar para uma idade “multimediática” na qual os media são
muitos, e a televisão já não é rainha dessa multimediaticidade.
O novo soberano
é agora o computador. Porque o computador não só unifica palavra, som, imagens,
mas introduz nos “visíveis” realidades simuladas, realidades virtuais.
Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar
Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar
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