sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O progresso tecnológico – Giovanni Sartori



O autor nos fala aqui da emergência de uma idade que designa de idade multimediática. 

Sartori: Todos os processos tecnológicos, na altura da sua aparição, foram temidos e até contestados.

Leigo: Qual a razão dessa contestação?

Sartori: É óbvio que toda a inovação incomoda, porquanto muda situações constituídas. Mas não podemos nem devemos generalizar. A invenção mais contestada, foi historicamente, a da máquina, da máquina industrial.

Leigo: Porquê?

Sartori: Quando apareceu, foi muito temida, porque – dizia-se – tirava trabalho. E, apesar da máquina ser imparável, e não obstante todos os benefícios que produziu, ainda hoje as críticas a civilização da máquina levantam problemas reais. Mas, comparada com a revolução industrial, a invenção da impressão e o progresso das comunicações não encontraram hostilidades relevantes.

Leigo: Como assim?

Sartori: É que ao contrário das contestações ao surgimento da máquina a vapor, esses foram quase sempre aplaudidos e acompanhados de previsões eufóricas. Quando apareceram, o jornal, o telégrafo, o telefone, a rádio foram saudados quase por todos, como “progressos” saudáveis na divulgação de informações ideias e cultura. Mesmo quando um progresso tecnológico não provoca receios relevantes, cada invenção dá lugar a previsões sobre seus efeitos, isto é sobre as consequências que irá produzir.

Leigo: E quanto a tecnologia, houve essa preocupação?

Sartori: Sim. Não é verdade que ela tenha provocado previsões catastróficas. Mas, a verdade é que em muitos casos previmos mal, no sentido em que aquilo que aconteceu não estava previsto.

Leigo: Podes exemplificar?

Sartori: Claro! Por exemplo, a rádio, teve efeitos secundários não previstos como a “musicalização” da nossa vida quotidiana. Quanto a televisão, até a sua aparição em meados do nosso século, o ver do homem tinha-se potenciado em duas direcções: sabíamos ampliar o muito pequeno (com o microscópio), e sabíamos ver ao longe (com o binóculo e, mais ainda, com o telescópio). Ela permite-nos ver tudo sem irmos ver: o que é visível entra em nossa casa, praticamente de forma gratuita, a partir de qualquer parte do mundo.

Leigo: Mas não é verdade que a televisão está a ser ultrapassada?

Sartori: Sim. Em poucas décadas, o progresso tecnológico mergulhou-nos na idade cibernética. 
E, de facto, passamos, ou estamos a passar para uma idade “multimediática” na qual os media são muitos, e a televisão já não é rainha dessa multimediaticidade
O novo soberano é agora o computador. Porque o computador não só unifica palavra, som, imagens, mas introduz nos “visíveis” realidades simuladas, realidades virtuais.   

Referência: SARTORI. Giovanni. (2000). Homo Videns: Televisão e pós pensamento. Lisboa. Terramar

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